Você está no arquivo de romance.

O Pré Destinado

21 de fevereiro de 2017 em Conto, Geral

Por muitos anos tenho assistido a uma grande campanha para destruir a grande obra que meu pai fez neste mundo. Roubaram todo o nosso patrimônio, destruíram nossas fotos e documentos, mas não puderam apagar nossa memória nem os benefícios que estão implantados hoje e estarão sempre. Hoje revelo parte da história deste homem que deveria ser tratado como herói, mas pela ganância dos ditos “poderosos” foi tratado como um louco…

Filho de José Francisco de Oliveira, um português que, apesar de sua remota origem judaica e sua condição de “marrano”, não seguia nenhuma religião e Anna Quintina de Oliveira, Nardino conviveu muito pouco com a família. José era alcoólatra e viciado em jogos de azar, seguia ora ganhando ora perdendo e, cada vez mais viciado tanto na bebida quanto no jogo, certa noite, sem condições de pagar o que devia ao viajante árabe, ganhador do jogo, teve uma ideia: Ofereceu o primogênito como escravo. Era Nardino que, na época tinha apenas cinco anos de idade e não entendeu porque foi acordado na madrugada, obrigado a fazer sua pequena mala e afastar-se de sua mãe que, aos prantos, pedia ao marido que não levasse o menino. Mas José, enlouquecido, arrastou Nardino e o entregou ao árabe ganhador da aposta.

Nardino passou a trabalhar o dia todo para pagar a dívida de seu pai e, a noite, ele recolhia réstias de alho que não eram boas para consumo, juntava o pouco aproveitável e fazia pequenos pacotes que ele vendia por um preço bem mais baixo, escondido do árabe, na vizinhança. E juntava cada centavo que conseguia. Seu objetivo: Rever a mãe que estava a mais de quinhentos quilômetros de distância. Aproximadamente três anos depois, Nardino agora com oito anos já sabia negociar muio bem. A convivência com o árabe e o desejo de rever a mãe o impulsionaram a tornar-se um excelente comerciante. Foi quando chegou o telegrama; sua mãe tinha falecido com apenas 33 anos de idade, durante (mais) um parto. Nardino já tinha juntado uma pequena fortuna e poderia tranquilamente viajar de primeira classe para, ver sua mãe, mesmo que fosse morta. Mas o árabe, não se sabe porque, deteve o telegrama até que o último trem partisse. Quando o entregou a Nardino, este só pode chorar a noite toda, agarrado ao telegrama, olhando sua pequena fortuna juntada com tanto sacrifício e que não tinha servido ao seu propósito de rever sua mãe.

No dia seguinte, revoltado, ele investiu todo o seu dinheiro em pólvora e uma grande manilha, juntou o máximo de cacos de vidro e pedras que podia encontrar e pôs-se a construir um canhão e uma espécie de pedestal para suportá-lo. Demorou alguns dias, construindo-o secretamente. Até que, numa madrugada em que todos dormiam tranquilamente, ele terminou a construção de sua arma, ateou fogo e a arma descontrolada passou a atirar inúmeros cacos de vidro e pedras a todos os lados. O desespero se instalou na pequena cidade, muitos gritavam que “o Nardino estava bombardeando a cidade”.

Neste dia, o árabe percebeu a grande injustiça que cometia. Não só tendo aceitado uma criança de apenas cinco anos para trabalhos escravos, mas tendo escondido o telegrama impedindo Nardino de ver a mãe morta. Então propôs um salário em troca de seu trabalho. Apesar de magoado e revoltado, ele não tinha escolha: aceitou. Assim, com apenas oito anos de idade, ele teve seu primeiro emprego remunerado. E também teve permissão para frequentar a escola, como toda criança tem direito. E aprimorou seus conhecimentos no comércio, no idioma árabe e, posteriormente, em outros idiomas.

Certo dia, ao negociar um tecido, recebeu uma Bíblia como parte do pagamento. Estava escrita em Latim. Nardino passou então a decifrar o que estava escrito e não só teve seu primeiro contato com parte das Escrituras mas aprimorou estudos no Latim que, naquela época, fazia parte da grade de aulas nas escolas. A partir dai despertou seu interesse em aprender outros idiomas e ler Bíblias em outros idiomas também.

Ainda adolescente, Nardino já tinha renda própria e um alto padrão de vida, já tinha seu próprio comércio e podia dizer-se, ao menos, financeiramente, realizado. Aos dezoito anos, veio o chamado para alistar-se. Ele confiou sua loja a um amigo que ficou encarregado de retirar uma parte da renda como salário e o restante dividir em duas partes, uma seria enviada aos seus irmãos menores, que agora sofriam muito nas mãos de uma madrasta. E a outra parte seria enviada ao quartel para bancar as despesas de Nardino que, ao alistar-se, teria direito apenas ao alojamento e alimentação e ele queria continuar estudando….

Esta história continuará a ser descrita, em breve, no próximo capítulo. Mas você já pode ler sobre a trajetória e a obra de Nardino Francisco de Oliveira, clicando aqui. Como curiosidade, segundo a Wikipédia “ O serviço militar foi tornado obrigatório através de lei, em janeiro de 1906, durante o governo de Afonso Pena, quando o marechal Hermes da Fonseca era ministro da Guerra. Porém, só foi efetivamente implementado com a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial. A obrigatoriedade do serviço militar, hoje, é disciplinada pela Lei nº 4.375, de 17 de agosto de 1964, que dispõe, em seu artigo 5º, o seguinte:

A obrigação para com o Serviço Militar, em tempo de paz, começa no 1º dia de janeiro do ano em que o cidadão completar dezoito anos de idade e subsistirá até 31 de dezembro do ano em que completar 45 anos.

  • § 1º Em tempo de guerra, esse período poderá ser ampliado, de acordo com os interesses da defesa nacional.

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.
Pular para a barra de ferramentas